hoje eu acordei todo encolhido
no inferno das rebordosas da vida
pagando com a cabeça as dívidas
da noite que brigou comigo
hoje eu tentei me lembrar
ainda que só de relance
ainda sem ter ao alcance
as pessoas que se esqueceram comigo
hoje o sol tem um peso maior
que os vinte tapas na cara que não me doeram
e hoje o ar tem um cheiro de álcool
maior que os copos que não me venceram
vem, pode vir, e me conta
porque você sempre se faz de tonta?
diz que eu sou um canalha
diz que você sente vergonha
vem, pode vir, e conta
porque você se faz de sonsa?
diz que eu sou um canalha
e que é por isso que você me ama
você foi, salto alto, vestido
não falou comigo, nunca me avisou
me encontrou junto de mil cinturas
jogou meu cigarro no chão e pisou
se atracou com o primeiro homem
que tomou suas dores e quis me empurrar
depois, foi embora pra um canto
e fingiu não ligar
de longe, eu ouvi os seus gritos
e as suas desculpas pro seu novo amor
que o ódio dos seus dentes cerrados, me olhando
cravaram a língua do cara de dor
quando eu já nem lembrava mais a quem pedir desculpas
quando eu já me afogava em outras línguas, outras culpas
vem, e me conta
porque você sempre se faz de tonta?
diz que eu sou um canalha
diz que você sente vergonha
vem, pode vir e me conta
porque você se faz de sonsa?
diz que eu sou um canalha
e que é por isso que você me ama
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