domingo, 9 de junho de 2013

Juiz de Fora

eu posso chegar perto de você
e começar a proferir frases sem sentido
palavras que você não tem o mínimo interesse em ouvir
mas escuta mesmo assim por interesse em outras coisas

você pode nem ouvir mas pode se fingir interessada
e eu posso me animar e continuar a discursar
até ficar sem assunto, sem saliva, sem cerveja
e inventar algum motivo para te levar comigo
pra comprar mais gasolina e reforçar a rotina
de quem se dá ao trabalho de sair de casa à noite
pra beber, pra beijar, pra dançar e pra mais merda nenhuma além disso

daí, você pode se sentir entediada
e inventar alguma desculpa pra sair de perto de mim
porque eu sou doido demais, bêbado demais, pobre demais
porque eu falo demais ou porque eu conto moedinhas pra ficar muito pior

ou você pode se encantar
com um ser humano tão único
e tão neandertal como eu

você pode optar pelo estudo antropológico
de conhecer mais à fundo a mim
e não querer voltar para a velha história de drink na mão
dancinha discreta, olhares de ombros
reconhecimento de campo e pensamentos voltados
para uma fuga que pode ocorrer a qualquer momento
já que as estrelas atraem os loucos,
e as bundas atraem muito mais

depois, a gente pode se beijar
e pôr em prática o que se propôs
quando viemos pra cá
ou então, a gente pode conversar
e poluir o ar com frases sujas
e outras coisas mais

enquanto a noite ainda vigorar
eu posso te amar muito mais do que já te amaram alguma vez
mas quando amanhecer, eu peço apenas
que nenhum de nós pensemos que agiremos
da forma como à noite se fez

sendo assim, eu posso te enrolar e contar mais umas histórias
sobre o nosso futuro
mas o futuro não demora a chegar
e, não sei quanto a você, mas eu prefiro pular todas essas asneiras
que são sempre tão iguais e tão superficiais
porque todo mundo sabe que o que se diz aqui
quase nunca é verdade e não se pode confiar

nós dois sabemos bem onde isso pode chegar
e é recíproca a vontade, meu bem
por isso, não se assute quando eu te beijar
lá em Juiz de Fora, devem fazer isso também

só para nós

a felicidade ao sentir o cheiro
da saudade que ficou
no meu cobertor
só não é maior que a dor
desse silêncio ensurdecedor

se ouvir nossos discos antes
me fazia sempre concordar
em como tudo era tão bom
hoje a sinfonia suja do asfalto
me parece até um show do Tom

a cidade grita
e tudo que eu sei escutar
é só a sua voz
um desespero atroz
toma conta do meu mundo
e não me deixa respirar
e eu já nem quero mais
já não me satisfaz a paz
nem mesmo em outro coração

não é bom morrer de amor
e continuar vivendo não

a cidade grita
e tudo que eu sei escutar
é só a sua voz
um desespero atroz
toma conta do meu mundo
e não me deixa respirar
e eu já nem quero mais
somente satisfaz a paz a mim
com o teu coração

a cidade grita
e tudo que eu sei escutar
é só a sua voz
um desespero atroz
toma conta do meu mundo
e não me deixa respirar
e eu já nem quero mais
vamos nos encontrar
vamos nos abraçar
vamos desafiar a morte
a vida, a sorte
o céu e mais
a eternidade só para nós
só para nós

arbítrio

desfila por aí seu vazio fétido
o corpo arruinado pedindo socorro
piscando o olho como atira um soldado
torturado pelo desejo de sangue de outro

remoendo passado e futuro
tomando de assalto o próprio presente
pesado de tanta mágoa, de tanto receio
e de tanto desejo de tornar a vida poeira

e eu me pego pensando
tentando entender meu relógio
tentando tornar proveitoso algum pensamento
que só faz me afastar da vida real
e me aproximar da eternidade
da plenitude rubra
da paz do cheiro de gim

sim, não sou diferente
e o que me separa?
a ambição mórbida do dinheiro?
o calor de fevereiro?

o sol queima meu corpo e faz sombra
esconde meu próprio vazio
sufoca meu grito desesperado
por trás do julgamento de outro

e o ardor da luz me acalma
me acalenta enquanto não sei o que faço
enquanto meu único pedido de socorro
não me deixa ter livre arbítrio

Ana

Ana entrou na vida como fumaça
depois de um sopro terno
pairou no ar, flutuando majestosa
vivendo como quem surfa ondas mansas
como quem trilha veredas brandas

tentou fugir do vento, ainda que lento
mas se perdeu nas palavras e foi-se
foi
como o ar
se dissipa em sua própria infinidade