quarta-feira, 26 de abril de 2017

Como tudo muda em três anos. De repente me deu vontade de escrever aqui, qualquer coisa que não fizesse tanto sentido ou tivesse alguma utilidade prática. 90% do que eu escrevo começa com essa justificativa, tirar algo do nada pela simples necessidade de tê-lo. É quase uma mistura de orgulho, vaidade e medo. Orgulho de ser um nascedouro. Vaidade por ser esse nascedouro. Medo de não nascer nada.

Por isso justifico, senão sentava e escrevia o que me desse na cabeça. Fui muito tolido esses anos todos, muito louvado também. Algumas pessoas acham algumas coisas que eu faço brilhantes, outras pessoas acham que minha escrita é um lixo, que eu não tenho talento algum. Na balança, entre um e outro, eu fico comigo mesmo, que no momento não me acho porra nenhuma porque não tenho criado nada de novo. Depois de aprender sozinho a criar sozinho e, como Brecht, falhar e falhar de novo, falhar melhor.

Eu gosto de ficar sozinho. Penso melhor sozinho. Me poupo sozinho, e minhas fases loucas são justamente as em que me são extirpados o silêncio e a paz de não estar com ninguém. O que parece também escroto, visto de um lado. Mas eu sou meio escroto. No momento, meu embate interno é esse. Eu preciso não ser tão escroto? Será que é esse que eu sou?

Eu que nunca tive crise de adolescência, que sempre tive minhas escolhas muito bem definidas, me sinto nadando numa piscina sem cabeça. É de manhã, eu troco o dia pela noite, quero fazer meu dia útil. Meu cachorro me olha com cara de assustado, "é pra acordar agora?", me pergunta.

"Não tem uma regra, meu filho. Você pode dormir o dia todo."

As pessoas acordam ao redor dele, ele parece apreensivo. "Se todos acordam, porque eu tenho que continuar dormindo?".

"Porque você não tem coisa melhor pra fazer, meu filho. Você pode dormir o dia todo."

Queria que alguém dissesse isso pra mim. Assim, desse jeito, feito um conselho paterno. De preferência com validez para tal. Pra não soar o conselho errado que é.

Não vou discutir aos berros mais, porque eu gasto minha voz e só ganho no grito quando eu quero gritar, quando eu tenho interesse. Gastar meu empenho medindo força na voz? Já faço isso na minha banda.

Mas eu to um pouco cansado de muita gente falando muita besteira na internet como se fosse entendido do assunto. Enchendo de verborragia e meias-informações desimportantes análises infantis de obras que não têm capacidade de compreender.

A diferença pra mim é que eu admito a minha incapacidade. Por isso, critico. Não faço melhor. Apenas não faço. É tão simples.

Aí me dizem que eu sou amargo. Me dizem que eu falo merda. E, de fato, o que eu tenho falado de merda por esses meses superam toda a merda que eu já disse em toda a minha vida. Porque minha cabeça foi pra casa do cacete, como foi dito anteriormente, e eu me sinto nadando sem cabeça. Prestes a bater de pescoço em carne viva na parede da piscina sem nem prestar atenção de pra onde eu estou indo. Acontece, né.

Esse blog aqui, eu abandonei pouco antes de me tornar quem eu precisava ser pra conseguir minha liberdade. Abandonei em construção. Minha independencia eu queria dizer minha alegria, minha felicidade de estar só. Perdi essa força. E digo com toda a certeza que ninguém me quer por perto sem ela. Nem quem eu conheço, nem quem eu to pra conhecer.

Agora meu cachorro boceja, abre a boca e se prepara pra um dia novo. Os cachorros acordam felizes porque tem memória recente. Todo dia é uma chance de ser espetacular. Porque o inesquecível pra eles, é esquecido rapidinho. E logo eles tão prontos pra outra. Quase uma aula de vida. Com uma sabedoria que a gente não tem.

Talvez aqueles que não pensam.
A ignorância é uma dádiva.

domingo, 27 de julho de 2014

l'amour

eu não pedi o que você queria
você me deu a despedida
veio um beijo carregado
com todo o peso de uma vida

pegamos nossa história para estancar o ciúme
jogamos tudo fora pra ver como sangra o fim
a minha cara era buscar o não
a sua cara era aceitar que sim

todo dia andar com a dor
aprendendo a se esconder na paz
metade das suas sombras me comiam todo dia
mas eu não queria mais que qualquer coisa com você

agora tem que a gente explicar
quem não vive busca sempre entender o que não há
você vai me humilhar tentando se defender
e eu vou me defender tentanto te humilhar

e dentro de nós vai dormir a saudade
que vai sempre incomodar com a vida que a gente não viveu
e eu não vou te procurar
você não vai me procurar
porque a poesia não é gente pra questionar quem a quer

o amor é o primeiro drama
joga o tolo na fogueira pra ver se ele sai cantando
meu papel foi um engano
não tenho coragem pra ser louco, quanto mais para ser santo

e as horas que a gente gastou
as marcas que você deixou nesse chão vão se embora
para o bem dos outros dramas que virão

que amor nunca é pra sempre
mesmo sendo
e sempre é

perguntas demais

eu encontrei, te falei
sereno, a onda, de pé a idade
olha lá, a estrada assim valente
pudera ser eu tudo aquilo

mas eu não me calo
fiz de tudo, o óbvio, uma avenida
canta pra mim
onde está o dia?
minha alegria pode não ser

mas ninguém nesse mundo vai dizer
"deixa de lado"
você assim fugiria mais
você não sabe a coragem

cada vez que eu me deito
eu me lembro das mentiras
do meu cantar
da sua, daquela boca

a minha agora encontra o sussurro do tiro no escuro
e sua voz que num dia tem fome
e no outro, tem susto

eu sou o meu calo
fiz de tudo, até o impossível
mas não quero perguntar o óbvio
nem quero procurar no escuro

terça-feira, 27 de maio de 2014

vergonha alheia da noite que eu não lembro ou assumindo porque as pessoas me amam e me odeiam simultaneamente

hoje eu acordei todo encolhido
no inferno das rebordosas da vida
pagando com a cabeça as dívidas
da noite que brigou comigo

hoje eu tentei me lembrar
ainda que só de relance
ainda sem ter ao alcance
as pessoas que se esqueceram comigo

hoje o sol tem um peso maior
que os vinte tapas na cara que não me doeram
e hoje o ar tem um cheiro de álcool
maior que os copos que não me venceram

vem, pode vir, e me conta
porque você sempre se faz de tonta?
diz que eu sou um canalha
diz que você sente vergonha

vem, pode vir, e conta
porque você se faz de sonsa?
diz que eu sou um canalha
e que é por isso que você me ama

você foi, salto alto, vestido
não falou comigo, nunca me avisou
me encontrou junto de mil cinturas
jogou meu cigarro no chão e pisou

se atracou com o primeiro homem
que tomou suas dores e quis me empurrar
depois, foi embora pra um canto
e fingiu não ligar

de longe, eu ouvi os seus gritos
e as suas desculpas pro seu novo amor
que o ódio dos seus dentes cerrados, me olhando
cravaram a língua do cara de dor

quando eu já nem lembrava mais a quem pedir desculpas
quando eu já me afogava em outras línguas, outras culpas

vem, e me conta
porque você sempre se faz de tonta?
diz que eu sou um canalha
diz que você sente vergonha

vem, pode vir e me conta
porque você se faz de sonsa?
diz que eu sou um canalha
e que é por isso que você me ama

por aí

não adianta, amor
você não vai querer escutar o que eu tenho pra te dizer
que por trás desses teus olhos verdes
você vai refletir e não vai conseguir entender

porque as coisas pra quem tem varanda
são muito mais fáceis
pra quem tem varanda e amigos
sempre tão maleáveis

estendendo na rua um tapete vermelho
pra moça não sujar os pés
enquanto você, a procura do otário da vez

me dá essas sacolas que eu levo
não precisa você me pedir
só pra realizar seus joguinhos
de ser e se sentir

que esse seu prazer em se fazer obedecer
é tão claro que você não consegue nem perceber
que pra si mesma, está sempre no controle
mas longe dos seus cabelos loiros todos riem de você

não adianta, amor
você não vai gostar
você não vai mudar
você não vai querer nem perceber

não adianta, amor
você é assim
mas ta tudo bem
tem sempre um palhaço solteiro por aí

tem sempre um circo por aí
tem sempre um palhaço por aí
você vai ser feliz
com seus amigos gola V
seus tapetes e seus palhaços por aí
na sua varanda ouvindo Charlie Brown Júnior por aí
vivendo a base do pela-saquismo dos outros por aí
por aí

terça-feira, 11 de março de 2014

estranho no ninho ou jamais é o caralho, rangel

dos nãos que a mim são distribuídos
sobra sempre apenas a razão desses doídos
a teimosia que de costume irrompe desde menino
o desejo intransigente de findar esse suplício

no coro dos contentes, no bailar dos mortos-vivos
nos movimentos simulados desses homens com seus vícios
no bloco dos sabidos sem pedir eu me alumio
afinando em outros tons o badalo dos meus sinos

subindo a maré dos sonhos na contra-mão dos meus próprios delírios
eu só quero me hipnotizar com a alienação dos meus próprios instintos
e quando os sins desvendarem o que se esconde por trás de meus vocábulos gírios
já estarei longe, longe
ou habituado aos meus próprios perigos

mas no fim, tanto dizer só prova que sim
a vida é isso
a verdade de se esgarçar
pra se adaptar
e encenar o brio
e o sonho de deitar na cama
e acordar criança
só mais um pouquinho

quinta-feira, 6 de março de 2014

não sou velho mas gosto de viajar

eu toco pra não explodir
eu sorrio pra não desistir
eu mudo pra não me mentir
eu minto pra me divertir

cada quadro, o som dessas vozes entrelaçadas
cerveja, dreher
um fundo laranja na minha monogamia mental
eu só falo calado
eu só falo comigo

um céu sem sol
um sol sem som
um som sem mim

vou dizer adeus
vou olhar pra trás
vou querer voltar
vou saber que não
vou voltar jamais

melhor
vou ficar, vou sorrir
vou cantar, vou viver
vou gastar a juventude que me resta nessa vida

vou dar conselhos a mim
"não beba tanto"
"não seja santo"
vou dizer que sim
vou ficar pra sempre

até não ter adeus pra dar
não ter ninguém pra abraçar
pra fumar um maço
pra sorrir do lado

vou viver o tempo
pra não pedir arrego
pra não puxar o freio
pra não pedir pra descer
pra não pedir pra voltar

na verdade, eu só quero sonhar
eu só quero contar
eu sou novo
eu sou novo e só quero viajar