terça-feira, 28 de janeiro de 2014

é assim mesmo

passei por ela lento
manco, coxo, franco
sequelas de quedas passadas

às vezes, eu penso que eu vivo melhor de olhos fechados
de olhos fechados, eu canso menos o pescoço
é assim mesmo

não era dia, não era noite
tipo de hora que a solidão morde a coleira e te chama pra passear
late, berra, trava guerra
mimada essa solidão
é assim mesmo

a solidão sente medo
gente traz felicidade
solidão compartilhada é sorte
sorte mata

mas não era dia, não era noite
a solidão veio me chamar
mesmo manco, mesmo coxo
franco, eu não pude negar
e fui

a luz fraca do corredor competia com os poucos raios de sol
é assim toda manhã
no jogo de sombras, eu cerrei os olhos
a solidão gemeu

passei por ela lento
manco, coxo, franco
eram jornais empilhados
recém-nascidos, chorando, sangrando
implorando
exigindo olhos e mãos
mimados
é assim mesmo

passei veloz
a solidão já suspirava
aliviada com o abandono das pobres folhas
e eu corri
para que o vento soprasse meus pensamentos pra longe

na maioria das vezes, é assim
se eu fechasse os olhos
talvez não pensasse tanto
e não deixasse tanto de agir

sentei no banco à espera de uma sombra
chegou então um assovio
o silêncio da noite é mais imponente que as vozes entrelaçadas do dia
ela sentiu medo de gritar
como a solidão sente medo de me perder

o portão se abriu e ela se foi
rua afora
sorriso em riste
charrete em punho
destilando paz

felicidade é questão de costume
é assim mesmo

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